Convite à vida

Convite à vida

Desde Hemingway, a cada tragédia humana somos obrigados a lembrar que é por nós que dobram os sinos. O gênio humano ainda não criou melhor síntese para a dor compartilhada diante da tragédia. E neste ano de 2015, os sinos não nos deram trégua. 
 
Desde 03 de janeiro, quando o assassinato de mais de 2 mil nigerianos inaugurou o painel de horrores, até ontem, com a morte de 128 franceses em Paris, os sinos nos arrancam do sono e nos atiram à realidade, mês após mês.
 
Não há escala para se medir o horror. O número de vítimas? As motivações? O absurdo? A negligência? Não há.
 
Com isso em mente, e com absoluto respeito a todas as vítimas de todas as tragédias, o Observatório faz um convite aos leitores, especialmente aos colegas Analistas. Convidamos a um olhar mais demorado sobre os fatos que se desenrolam aqui, no Vale do Rio Doce, desde o rompimento das barragens de lama da mineradora Samarco, há duas semanas.
 
Não bastassem os efeitos imediatos - a destruição do distrito de Bento Rodrgiues em Mariana-MG e a morte de muitos moradores - a publicação dos primeiros estudos sobre as consequencias em todo o Vale do Rio Doce, desde Mariana até o Oceano Atlântico no Espírito Santo, são estarrecedoras.
 
O avanço de toneladas de lama, que desce o vale seguindo o rio, está matando vegetação, animais e o solo, transformando o vale em um deserto de lama. No seu curso estão aproximadamente 500 mil pessoas. Muitas dependem diretamente da fertilidade da terra para viver. A recuperação pode levar dezenas de anos. Os dados estão nessa matéria.
 
E há riscos de colapso de outra barragem da mesma empresa na região de Mariana. Leia aqui.
 
É certo que momentos dramáticos como esse despertam o melhor de nós. A solidariedade demosntrada foi imensa. Colegas da região, de cidades como Governador Valadares, confirmam o fato.
 
Mas também sabemos que passado o impacto inicial, tendemos a retomar nosso cotidiano e seguir o caminho. O que é desejável e necessário para que a dor não nos paralise. O que seria de nós sem o bálsamo do tempo?
 
É nesse ponto que gostaríamos de lançar nosso convite à vida. Dos fatos terríveis cocrridos em 2015, esse é o que está próximo de nós. E se nada for feito, as consequencias se estenderão por tempo indefinido. Sequer conhecemos ainda a extensão dos danos.
 
Projetos de ações já começam a aparecer. Citamos um aleatoriamente, sem juizo de valor. Do Instituto Terra, proposto por Sebastião Salgado. O projeto vai além da recuperação ambiental e lembra que há seres humanos no Vale. Propõe solução de agricultura familiar para aqueles que vivem da terra. Louvável, à primeira vista.
 
Outros certamente aparecerão. Há esperanças, portanto. E haverá trabalho para muitos. Agindo, vigiando, exigindo. Das empresas e do poder público. 
 
Nós, Analistas Tributários, como servidores públicos e agentes do Estado - além de cidadãos - com nossas variadas especialidades, certamente podemos oferecer nossa contribuição em diferentes áreas. A boa luta nos engrandece, revigora o espírito. Mantém a espinha ereta, a mente alerta e o coração tranquilo.
 
Em meio a tanto horror, é esse o convite à vida que gostaríamos de fazer.
 
O Observatório se coloca à disposição para ajudar no que for possível, inclusive divulgando as ações.
 
E quem sabe daqui há alguns anos, o Cristo Redentor, o Palácio da Liberdade, o Palácio do Planalto e cada monumento desse país, será iluminado para comemorar o renascimento da vida no Vale e não para chorar mais mortes sem sentido.
 
Quem sabe até, alguns sinos dobrem pela vida.
 
Texto atualizado em 15/11/2015
 
 

Comentários (2)

ANIZIO RODRIGUES

16/11/2015
"Lira Itabirana”, Carlos Drummond de Andrade, 1984

I
O Rio? É doce.
A Vale? Amarga.
Ai, antes fosse
Mais leve a carga.
II
Entre estatais
E multinacionais,
Quantos ais!III
III
A dívida interna.
A dívida externa
A dívida eterna.
IV
Quantas toneladas exportamos
De ferro?
Quantas lágrimas disfarçamos
Sem berro?

Sergio de Paula Santos

27/11/2015
Incrível, profético, caro Anízio. E há quem diga que a poesia para nada serve.

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