Efeito colateral dos quatro anos

Efeito colateral dos quatro anos

Matéria originalmente publicada na Revista do Observatório 5, edição especial salário, julho/2015.
Com a apresentação, agora, da proposta do governo para a carreira auditoria, ínsistindo no reajuste em qatro anos, publicamos novamente o artigo, atualizado.
Os riscos do reajuste em prazo tão longo, vão além das possiveis perdas salariais.
 
 
 
Um dos aspectos pouco debatido na proposta apresentada aos servidores pelo Governo no último dia 21/07, é o reajuste em 4 anos. E quando lembrado é pela imprevisibilidade dos rumos da economia por prazo tão longo. O que é verdade e preocupante. Mas tem outras sérias razões para se rechaçar essa oferta.
 
As razões do Governo são diversas. A principal é afastar o “problema” da negociação om os servidores por um bom tempo. O processo sempre gera desgaste político, especialmente em ano eleitoral, como será 2018. Prever os gastos com a folha de pagamento até o próximo governo também deve ter sido considerado.
 
Para os servidores, as razões não ditas, talvez sejam as mais impactantes. Ficar 4 anos sem discutir salário significa, na prática, desmobilizar as categorias e seus sindicatos por 4 anos. Por mais que outros itens das pautas reivindicatória possam ser tratados nesse longo período, sabemos que a questão salarial é carro chefe de qualquer movimento.
 
Basta ver, por exemplo, a questão da Convenção 151 da OIT, que trata do dissídio coletivo dos servidores públicos. A última vez que ela foi pautada e defendida foi durante as mobilizações salariais de 2012.
 
Outro problema evidente é a dificuldade em retomar a mobilização depois de longo período. Estamos vendo isso na prática nesse exato momento. Os 3 anos sem ação, desde a última negociação salarial em 2012, estão custando caro aos servidores em 2015.
 
As primeiras conversas entre sindicatos e governo se deram em março de 2015. Desde então se sabia que haveria intransigência do governo. A proposta final foi apresentada à categoria em 18/12 com prazo de 1 semana para deliberação nas assembleias, em período de férias e recesso natalino. O esforço de mobilização de sindicatos, centrais e confederações fracassou ainda em agosto, fruto, em grande medida, da desarticulação deixada por três anos sem negociação.
 
Quatro anos sem possibilidade de reivindicar salário significa também manter os servidores públicos afastados de pautas mais gerais, fundamentais para todos os trabalhadores. Temas como redução de jornada, adicionais diversos (como o de fronteira para Analistas), terceirização (que já chega ao serviço público), proteção contra o assédio moral e várias outras.
 
O argumento de que essas pautas podem continuar sendo negociadas em mesas permanentes não se sustenta na prática. Em que pontos das nossas reivindicações avançamos desde 2012? Nenhum. É o salário que comanda todos os outros itens negociados. Sem a sua força mobilizadora, os representantes negociarão em desvantagem.
 
Devemos, portanto, ser intransigentes com essa questão. Sindicatos, Centrais e Confederações, aparentemente, ainda não fizeram a devida avaliação dos seus impactos, muito além dos riscos de perdas financeiras.
 
A primeira vítima dos 4 anos pode ser eles mesmos e seus dirigentes.
 
Mari Lucia Zonta
 
 
 

Comentários (1)

Cláudia Schwab

22/12/2015
Muito pertinente a republicação deste texto, que cria mais força ainda quando estamos em dezembro e o governo segue nos manipulando através de artifícios que nos levem a aceitar o absurdo prazo de 4 anos de acordo salarial. No apagar das luzes, ameaçando aos servidores com prazos que poderiam, se descumpridos, inviabilizar quaisquer negociações. Voltemos os olhos para 2012. E que possamos aprender com nossos erros passados.

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