Poder x Mulher

Poder x Mulher

Preconceito contra mulheres. Confesso que o tema não me agrada. Tratar do tema não me agrada. Porque estou cansada. Esse é trabalho para as meninas. Não apenas porque é extenuante e um pouco doído tratar disso, mas porque o machismo tem nuances próprias de cada época e ninguém melhor do que a geração do tempo presente para reconhecê-las.
 
Não que o preconceito contra mulheres aplaque sua fúria contra as mais velhas. Ao contrário, quando despe o manto do desejo, o machismo veste o da crueldade. Sem máscaras.
 
Acontece que o tema nos foi pautado antes mesmo do evento que permeia esta edição da Revista do Observatório. Foi durante a sua organização. Assim que apresentamos a programação, com a composição das mesas, uma amiga da Intersindical constatou que entre os 23 convidados havia apenas 2 mulheres entre palestrantes e debatedores.
 
Autocrítica aceita, já que participei da organização, fui pesquisar mulheres dentro das mesmas áreas dos convidados homens. O resultado foi desolador. No jornalismo político e econômico, por exemplo, pouquíssimas. Nas centrais sindicais, sindicatos e federações, raras. Na cúpula da Receita Federal, um pouco pior. Cito como exemplo a Receita em Minas. Das 14 Delegacias do estado, apenas 1 mulher. Sem falar das DRJs, Inspetoria e Superintendência. Somadas, são 18 unidades. Apenas 1 mulher.
 
Na abertura do evento, perguntamos ao Superintendente de Minas, Hermano Lemos, sua opinião sobre o quadro. Disse que os chefes de unidades são escolhidos a partir do banco de gestores, onde os candidatos aos cargos se inscrevem livremente. E que são raras as mulheres inscritas.
 
A questão, portanto, parece ser outra. Por que fogem do poder as mulheres? Ou seria o contrário.
 
A justificativa de outro administrador da Receita presente no evento, de que há, por outro lado, muitas mulheres como adjuntas dos titulares, afasta dois argumentos tentadores.
 
1. Falta de capacidade delas. Fosse o caso, por que são convidadas e nomeadas pelos titulares para suas adjuntas (inclusive como partícipes das mesmas decisões)?
 
2. Elas não tem interesse ou vontade. E mesmo assim aceitam o convite para adjuntas? O que justificaria o “sacrifício” de aceitar?
 
A resposta só avança se entrarmos no difícil campo das sutilezas, do não dito, do preconceito apenas sentido, mas impossível de ser traduzido racionalmente. E da impotência que isso causa. Porque “existe um sentir que é entre o sentir - nos interstícios da matéria primordial”. Diferente do preconceito que se vale da violência física, que deixa atrás de si evidentes olhos roxos, braços quebrados, corpos no chão, a modalidade sutil se faz apenas sentir, a violência, não menos doída, é em outro lugar. Não quebra a espinha dorsal, mas quebra a coluna de sustentação da nossa humanidade, da nossa dignidade.
 
No caso da vontade de poder, de mando, a sutileza do machismo se expõe. Basta notar que a um homem ambicioso, que galga postos de poder e mando atribui-se certa aura de Odisseu. Mas vá Penélope se atrever a desejar poder ao invés de desejar pacientemente a volta de Odisseu e tecer sua colcha e chorar em silêncio.
 
O fato evidente, matemático, é que as mulheres ainda estão longe do poder, das linhas decisórias. As poucas que se atrevem a navegar os mares da política, da cúpula das grandes corporações, da política sindical, dos lugares de poder enfim, sabem das barreiras intransponíveis com que se deparam. Barreiras tantas vezes invisíveis para um olhar de fora, o que é desesperador. Sabem onde “está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo” e que não podem ultrapassar. Não porque não desejam, mas porque lhes é sutilmente proibido.
 
Há muito que avançar, portanto. Olho com esperança para uma parcela das meninas desta geração. E com desespero para outra parcela. Nessa disputa de Titânides* torço para que muitas JuB apareçam, sempre atentas, militantes, provocando reflexão, alimentando nossa fé na humanidade.
 
A elas, lembro que ainda falta aos embates das mulheres uma questão essencial, e poucas vezes posta: quais as consequências, para a humanidade toda, desse longo silêncio das mulheres entre as vozes com poder para decidir o nosso futuro?
 
“E a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.”
 
 
(*) Titânides. Na Mitologia Grega, são filhas de Gaia e Urano, as 6 irmãs dos Titãs. Teia, Reia, Têmis, Mnemosine, Febe e Tétis.
 
As citações entre aspas são de Clarice Lispector em A paíxão segundo G.H.
 
Mari Lucia Zonta
 
Imagem: The nation
 

Comentários (1)

Ana Claudia Calomeni

15/11/2016
Bem lembrado. Essa é mais uma luta dentro de tantas outras!

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